Gente que fala
No ano passado trabalhei como vendedora, nas férias, pra ganhar uma graninha. Na loja, aprendi que tem mulher de todos os tipos: as fofas, as vacas, as que reclamam de tudo, as que são horrendas e se acham lindas, as que são lindas e se acham horrendas, e por aí vai. Mas o que mais me chamou a atenção foi o tipo que fala. Um tipo que usa, sem pudor, a pobre da vendedora − que está louca para transformar em cifrões o tempo gasto com a cliente − como terapeuta.
− Posso experimentar esse casaco? − pediu a garota, que tinha uns 20 e poucos anos.
− Claro, vou pegar pra você! − atendi, com minha fofura habitual.
Quando voltei, ela me esperava na porta do provador. Como o casaco era carinho, comemorei: "Essa tá a fim de experimentar logo, comprar, e já sair da loja vestida com ele! Ganhei meu dia!". Doce ilusão.
− Sabe... calcinha velha, de estimação? − ela perguntou, com a cara mais normal do mundo.
Aprendi que, nesses casos, elas não querem resposta, só um ouvido.
− Aquela que tá detonada, furada, mas que você não consegue jogar fora? Aquela que é o conforto em forma de lingerie?
− Arrã − concordei. Afinal, o cliente tem sempre razão.
− Acredita que a vaca da minha irmã pegou minha calcinha velha preferida, sem me avisar, pra usar numa fantasia idiota de poodle?
Que conversa doida! E eu querendo tanto que ela ficasse quietinha e experimentasse o casaco...
− Tem em marrom também, viu? − tentei.
− A calcinha era branca. Estava encardida, eu sei. Quase bege. Mas era minha. Minha! Minhaaa! − ela aumentou o tom de voz. − O que leva uma pessoa a invadir a gaveta de calcinhas da irmã mais velha? Isso é crueldade demais, não é? − choramingou.
− Eu... − comecei a suar frio.
− Crueldade uma ova! A pirralha tem é vocação pra bandidagem, sabe? Tem um pé na delinquência, porque ninguém em sã consciência abre e furta gavetas alheias sem consentimento.
− Mas ela não fez...
− Aí, sabe o que acontece? Minha mãe corta a internet dela por um mês. Tinha que cortar os dedos da ladra, isso sim!
− Os dedos? − apavorei-me.
− Claro que não! Tô só exagerando − bronqueou, brava.
− Ah, tá, desculpa.
− Agora me diz: esse castigo idiota vai trazer de volta a minha calcinha velha de algodãozinho? Vai?
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